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ENCERRAMENTO

        As bruxas que, conforme a cultura popular, eram velhas, feias, repugnantes e hipócritas, foram apropriadas pelo pintor e gravador espanhol Francisco de Goya para representar os pensamentos ultrapassados e a obscuridade do Absolutismo e da Inquisição. Em um período de avanço da racionalidade ilustrada na Espanha (séculos XVIII e XIX), Goya utilizou as bruxas como metáforas de uma sociedade mergulhada na ignorância pelos poderes instituídos (TODOROV, 2014). “Goya quer arrastar o invisível para o mundo do visível, dar forma às fantasias que habitam o espírito humano [...] ninguém pode pretender que o avanço das Luzes tenha libertado [o homem] de todas as paixões. O imaginário não é o contrário do real, é até mesmo o melhor caminho para alcançá-lo” (TODOROV, pp.48-49). Para Goya a bruxaria não podia ser abordada utilizando apenas as luzes de análises racionalistas. Era necessário analisar os obscuros estados da consciência dos ditos bruxos e enfeitiçados e o substrato de tradições da cultura popular que mantinham vivas essas crenças, mesmo com a condenação da Igreja, a perseguição da justiça civil e o desprezo dos letrados. A racionalidade pura não seria capaz de compreender as facetas do universo de inseguranças, anseios e fragilidades da vida humana (BAROJA, 2011). Muitas vezes, receios e desalentos, amplamente difundidos entre a população, estão na raiz de medos irracionais, explosões de violências e perseguições contra determinados grupos que, racional e sistematicamente, são definidos como bodes expiatórios. Encontrar culpados pelas mazelas da sociedade sempre garantiu a conservação do sistema de poder, criando válvulas de escape para pressões sociais e a manutenção da união da comunidade contra um inimigo comum, mesmo que fictício. Na trajetória da cultura ocidental esse lugar foi ocupado por hereges, judeus, leprosos, muçulmanos e outros marginalizados. Com as Bruxas, tributárias de todas as características condenáveis e abomináveis dos grupos anteriormente condenados e perseguidos, construiu-se a obra prima da demonização, a personificação do próprio Mal entre a humanidade.   

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